QUEM SÃO OS CONGREGACIONAIS?
 

Por Manoel Bernardino de Santana Filho

 

INTRODUÇÃO

As igrejas ou comunidades do tipo congregacionalistas eram originalmente chamadas independentes, na Inglaterra, no final do século XVI e início do século XVII. O nome congregacional veio depois. Pode-se entender o significado desse nome quando se observa o caráter dos grupos eclesiásticos que ali se definiram desde Eduardo VI e Isabel. De um lado havia a igreja nacional, Anglicana, que mantinha a mesma estrutura eclesiástica de Roma, apenas nacionalizada, tendo o Rei como seu chefe. De outro lado estava o movimento puritano que cedo se manifestou e assumiu tendências diferentes. As primeiras manifestações históricas das comunidades congregacionalistas se verificaram em Londres entre 1567 e 1568. Richard Fytz é considerado como o mais antigo pastor de uma Igreja desse tipo. Em 1570 ele publicou um manifesto sobre "As Verdadeiras Marcas da Igreja de Cristo." Robert Browne, clérigo anglicano, adotou tais idéias em 1580 e com Robert Harrison organizou em Norwich uma congregação independente cujo sistema era substancialmente congregacionalista. Browne foi o primeiro teórico do movimento e logo as comunidades independentes passaram a receber o nome de Brownistas. Os congregacionais são geralmente calvinistas em doutrina e mantém um sistema de governo eclesiástico baseado em dois princípios fundamentais: 1) Cada congregação de fiéis, unida pela adoração, observação dos sacramentos e disciplina cristã, é uma Igreja completa, não subordinada em sua administração a qualquer outra autoridade eclesiástica senão a de sua própria assembléia; 2) tais igrejas locais estão em comunhão umas com as outras e intercomprometidas no cumprimento de todos os deveres resultantes dessa comunhão.

O CONGREGACIONALISMO NO BRASIL

1. KALLEY, O FUNDADOR

Robert Reid Kalley (1809-1888) médico escocês, natural de Mount Florida, nos arredores de Glasgow, nasceu no dia 8 de setembro de 1809. Pouco se sabe acerca de sua infância. Era filho de Robert Kalley, abastado negociante, e Jane Reid Kalley, que pertencia à Igreja Presbiteriana da Escócia. Em 1829 tirou o diploma de cirurgião e farmacêutico pela Faculdade de Medicina e Cirurgia de Glasgow, tendo feito os seus estudos práticos no Hospital Real dessa cidade. Era ateu mas graças ao testemunho de uma cliente foi conduzido a estudar cuidadosamente as Escrituras Sagradas. Esses estudos o conduziram à conversão.

2. KALLEY E A ILHA DA MADEIRA

À princípio Kalley pretendia evangelizar a China, mas, em conseqüência do grave estado de saúde de sua esposa, resolveu ir para a Ilha da Madeira, na costa portuguesa, onde chegou em 1838. No ano seguinte foi ordenado ao ministério pastoral, no dia 8 de julho. Em 1840 fundou um hospital. Em 1843 foi preso acusado de apostasia, heresia e blasfêmia, crime considerado inafiançavel e permanecendo preso por 5 meses. Em agosto daquele mesmo ano teve início uma terrível perseguição. Kalley saiu de casa disfarçado de camponês. Sua esposa e parentes se refugiram no consulado britânico. Sua casa foi invadida e destruída por homens que tinham ido eliminá-lo. Sem outra alternativa, foi deitado em uma rede disfarçado de velhinha enferma e transportado para bordo de um navio inglês que partiria para as Índias Ocidentais.

3. KALLEY NO BRASIL

Em dezembro de 1852 casou-se com D. Sarah Poulton Kalley. Sua primeira esposa, Mrs. Margareth Kalley falecera em 1851. Partiu para os Estados Unidos onde foi visitar aos madeirenses que ali se haviam refugiado por causa das perseguições. Passou com eles o inverno de 1853/54. Em 9 de abril de 1855 partiu com destino ao Brasil. Ele ficara impressionado com este país por conta da leitura de um livro publicado em 1845 pelo Rev. Daniel P. Kidder "Reminiscências de viagens e Permanências nas Províncias do Sul e Norte do Brasil" . Enquanto esteve em Ilinnois Kalley leu esta obra e ficou impressionado com a descrição da cidade do Rio de Janeiro e outros lugares. Em 10 de maio de 1855 aportava no Rio de Janeiro o vapor Great Western da mala real inglesa. Nele vinham, entre outros passageiros, o Dr. Kalley e sua esposa, D. Sarah, para iniciarem nessa terra um trabalho que duraria 21 anos e 57 dias. O Rio de janeiro de 1855 era uma cidade com cerca de 300 mil habitantes. Haviam cerca de 50 igrejas e capelas espalhadas pela cidade. A religião do império era a católica. Kalley, chegado ao Rio foi instalar-se em Petrópolis, numa mansão conhecida como GERNHEIM, que significa, "Lar muito amado", antes habitada pelo embaixador dos EUA, Mr. Webb. Em 19 de agosto de 1855, um domingo à tarde, Kalley e sua esposa instalaram em sua residência a primeira classe de Escola Dominical, contando com cinco crianças, filhos dos Webbs e do sr Carpenter. Foi contada a história do profeta Jonas. Com o desenvolvimento do trabalho, Kalley escreveu para amigos e antigos companheiros de Ilinnois, convidando-os a virem auxiliá-lo no Brasil. O primeiro a chegar foi Wiliam Pitt, inglês que fora aluno de D. Sarah na Madeira. Pouco depois vierem Francisco da Gama e sua mulher, D. Francisca, Francisco de Souza Jardim e família. O primeiro crente batizado pelo Dr. Kalley foi o sr. José Pereira de Souza Louro, em 8 de novembro de 1857. Mas foi em 11 de julho de 1858 que ele organizou a primeira igreja evangélica de regime congregacionalista no Brasil: A Igreja Evangélica Fluminense. Foi organizada com 14 membros tendo sido batizado naquele dia o sr. Pedro Nolasco de Andrade, primeiro brasileiro batizado por Kalley.

4. KALLEY E O CONGREGACIONALISMO

Sua origem era presbiteriana, tendo sido batizado na Igreja Presbiteriana da Escócia. Mas no Brasil ele não organizou uma igreja nos moldes presbiterianos. No entanto há o que se distinguir entre ser presbiteriano eclesiasticamente e ser calvinista em teologia. Kalley não se converteu ao congregacionalismo. Foi aos poucos que ele foi assumindo o jeito de ser congregacional. Lentamente desenvolveu um conceito de povo de Deus - Igreja - diferente do conceito calvinista. Quando veio para o Brasil depois de passar algum tempo nos Estados Unidos, sua convicção congregacionalista em matéria de organização e caráter da igreja local, já estava bem definida: não batizava mais crianças, organizou igrejas autônomas - Igreja Evangélica Fluminense, 1858 e, Igreja Evangélica Pernambucana, 1873 - independentes entre si e estabeleceu presbíteros e diáconos.

5. A PRIMEIRA CONVENÇÃO

Em 6 de julho de 1913 o Rev. Francisco Antônio de Souza liderou a organização da Primeira Convenção das igrejas de governo congregacional, estando presentes 13 igrejas: Fluminense, Pernambucana, Niterói, Passa três, Caçador, Encantado, Vitória de Santo Antão, Jaboatão, Monte Alegre, Paranaguá, Paracambi, Paulistana e Santista. Nessa Convenção decidiu-se fundar um Seminário para evitar que os vocacionados continuassem a ter necessidade de estudar no exterior. A fundação do Seminário Teológico Congregacional do Rio de Janeiro se deu em 3 de março de 1914.

6. NOMES DA NOVA ENTIDADE

1. 1913 - União das Igrejas Evangélica Indenominacionais

2. 1916 - Aliança das Igrejas Evangélicas Congregacionais Brasileiras e Portuguesas

3. 1919 - União das Igrejas Evangélicas Que Aceitam os 28 Artigos da Breve Expo- sição das Doutrinas Fundamentais do Cristianismo

4. 1921 - União das Igrejas Evangélicas Congregacionais do Brasil e Portugal

5. 1923 - União das Igrejas Evangélicas Congregacionais Independentes

6. 1924 - União Evangélica Congregacional Brasileira

7. 1934 - Federação Evangélica Congregacional do Brasil e Portugal

8. 1934 - União Evangélica Congregacional do Brasil e Portugal

9. 1941 - União de Igrejas Evangélicas do Brasil

10.1942 - União das Igrejas Evangélicas Congregacionais e Cristãs do Brasil

11.1968 - Igreja Evangélica Congregacional do Brasil

12.1969 - União das Igrejas Evangélicas Congregacionais do Brasil

 

7. PRINCÍPIOS CONGREGACIONALISTAS

1. Autonomia da Igreja local. Desse princípio se derivam todos os outros.

2. A sede da autoridade decisória final do governo eclesiástico está colocada na Assembléia dos membros da Igreja local.

3. Quem possui as prerrogativas eclesiásticas é a igreja local e esta não pode ser sacrificada em favor de qualquer outro princípio.

 

8. O CONGREGACIONALISMO NO BRASIL DE HOJE

A partir de 1942 houve a fusão de duas denominações evangélicas brasileiras: a Igreja Cristã Evangélica do Brasil (ICEB) e a União das Igrejas Evangélicas do Brasil, de governo congregacional, se fundiram numa denominação que veio a se chamar União das Igrejas Evangélicas Congregacionais e Cristãs do Brasil (UIECCB). Esta união durou até janeiro de 1968. Em 1969 foi aprovada a nova Constituição da nova entidade que agregarava os congregacionais do norte e do sul do país - União das Igrejas Evangélicas e Congregacionais do Brasil. Começou então um período de consolidação nacional. Foram remodelados os quadros administrativos da UIECB que contava com 177 igrejas espalhadas por vários estados do Brasil. Estas igrejas foram divididas em 15 regiões administrativas Foi adquirida uma sede própria Adquire-se uma gráfica para impressão da literatura denominacional Começa-se um despertamento missionário com abertura de campos em vários lugares. Reorganizam-se os seminários da denominação em Recife e Rio de Janeiro.

De 1969 até o presente exerceram a presidência da UIECB os seguintes pastores:

-Rev. Theodoro José dos Santos - 1969-1973

-Rev. Daniel Gonçalves Lima - 1973-1977,

-Rev. Deneci Gonçalves da Rocha - 1977-1983 -Rev. Jair Álvares Pintor

- 1983-1985 -Rev. Vanderli Lima Carreiro

- 1985-1989 -Rev. Amaury de Souza Jardim - 1989-1991

-Rev. Paulo Leite da Costa - 1991 até os nossos dias

A partir de 1992 a Sede da União passou a funcionar à sua Visconde de Inhaúma, 134, Salas 1307-1309, Centro, Rio de Janeiro. Ali, no décimo-terceiro andar está toda a administração da UIECB e onde se realizam também as reuniões da Junta Geral, aos terceiros sábados de meses ímpares.

A UIECB possui os seguintes departamentos:

1. Departamento de Atividades Ministeriais

2. Departamento de Educação Teológica

3. Departamento de Evangelização e Missões

4. Departamento de Educação Religiosa e Publicações

A UIECB conta hoje com cerca de 320 igrejas filiadas e mais de 400 ministros ordenados. A denominação que durante mais de cem anos foi alvo de missões estrangeiras, hoje faz Missões no Brasil e no Exterior, tendo alcançado todos os estados brasileiros e nações como Portugal, Espanha, Turquia, Jordânia, Moçambique, Angola e Guiné Bissau. Mas não apenas a Denominação faz Missões: igrejas locais, sozinhas ou em parcerias, tem enviado obreiros para várias partes do Brasil e do Mundo.

Órgãos de Divulgação do Trabalho Congregacional

- O Cristão - jornal centenário, fundado em 20 de janeiro de 1892

- Revista Vida Cristã, órgão oficial da Confederação das Uniões A. Femininas

- Revista O Exemplo - órgão oficial da mocidade Congregacional

- Revista COUACONTA - órgão oficial dos Adolescentes Congregacionais

Os congregacionais da UIECB não são os únicos congregacionais no Brasil. Há pelo menos quatro outros grupos congregacionalistas: Aliança das Igrejas Evangélicas Congregacionais do Brasil, em sua maior parte, centralizada no Nordeste; Igrejas Congregacionais Independentes, em pelo menos dois grupos distintos, no Rio de Janeiro; e Igreja Congregacional do Brasil, com sede em Ijuí, Rio Grande do Sul. Ultimamente esforços tem sido desprendidos no sentido de um convívio mais aproximado entre todos esses grupos. Púlpitos tem sido trocados e intercâmbio tem se evidenciado à nível denominacional.

9. BIBLIOGRAFIA BÁSICA DO CONGREGACIONALISMO

1. Alexander Telford - Artigos em "O Cristão" de 31 de agosto, 15 e 30 de setembro de 1916.

2. Atas de nossas primeiras convenções, até 1923, onde importantes princípios con- gregacionalistas, quer em respostas a questões levantadas quer em doutrina defendida em teses, são unanimemente aprovadas.

3. Francisco Antônio de Souza: 44 artigos publicados em "O Cristão", entre 15 de setembro de 1914 e 31 de janeiro de 1917 (série inacabada sobre Princípios do Congregacionalismo e Eclesiologia).

4. R.W. Dale - "A Manual of Congregational Principles". É um clássico do Congre- gacionalismo. Publicado em Edimburgo em 1884, deve ter sido lido pelo Dr.Kalley e foi em parte traduzido pelo Rev. Francisco de Souza. Este Manual depois de um longo período em que esteve esgotado foi reeditado em outubro de 1996 na Inglaterra.

5. Williston Walker, Creeds and Platforms of Congregationalism. Livro fundamental.

6. P.T.Forsyth, saudado pelo Dr. Dale como "o maior dos teólogos congregacionais" é autor de "The Church and the Sacraments", "The Principle of Authority", "The Work of Christ", "The Cruciality of the Cross", "Congregationalism and Reunion", "Positive Preaching and the Modern Mind".

7. Alexander MacKennal, "Sketches in the Evolution of English Congregationalism"

8. João Gomes da Rocha, "Lembranças do Passado", Volumes I, II, III e IV de 1941, 1944, 1946 e 1956.

9. Fortunato Gomes da Luz. Esboço Histórico da Escola Dominical da Igreja Evangélica Fluminense, 1855-1932, 542 p. ilustrado. Este livro abrange muito mais do que seu título sugere; é, segundo Carl Hahn, a melhor história do Congregacionalismo no Brasil.

10. Ismael da Silva Júnior, "Notas Históricas sobre a Missão Evangelizadora do Brasil e Portugal", 3v. Uma obra cronológica.

11. Henriqueta Rosa Fernandes Braga, Música Sacra Evangélica no Brasil, na verdade, uma outra obra cujo título não revela seu rico conteúdo sobre o congregacionalismo no Brasil. É um trabalho de alto valor científico, dado sua ampla documentação.

12. Manoel da Silveira Porto Filho, Congregacionalismo Brasileiro: Fundamentos Históricos e Doutrinários. 1983.

13. Salustiano Pereira Cesar, O Congregacionalismo no Brasil: Fatos e Feitos Históricos. Rio de Janeiro, OMEB, 1983.

14. Ismael da Silva Júnior, Heróis da Fé Congregacionais. 2v. 1972.

15. Lyndon de Araújo Santos, Os Mascates da Fé: Contexto e Cotidiano da Igreja Evangélica Fluminense (1855-1900). 1995. Dissertação não publicada. 1995.

16. William B. Forsyth. The Wolf from Scotland; the story of Robert Reid Kalley - pioneer missionary. 1988.